quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Barulhos em nós



Ouvimos um barulho forte da sala e alguns minutos depois, o pai entra com o filho nos braços. Tinha caído da cadeira, o pobre. Ele chorava sem parar. E nós observávamos a saga do pai para descobrir que parte do corpo o garoto machucou, já que ele tinha 1 ano e pouco e não sabia falar.

O pai perguntava: “Foi a barriguinha que você bateu?” e ele só chorava. O avô tentava: “coloca a mãozinha onde está doendo”, e a criança não obedecia, só soluçava. O pai ia pegando no pezinho, na barriguinha, observando se em alguns desses pontos a carinha de dor dele aumentava. Mas ao invés disso, o menino só ficava mais irritado com a incompreeensão. Até descobrir que o choro foi só pelo susto, foi-se uma meia hora.

Outro dia me dei conta que com a gente também é assim. Às vezes nos sentimos mal, estranhos, angustiados, mas não conseguimos indentificar imediatamente o que está nos deixando assim. Não é muito simples decifrar os códigos da alma, escutar a nós mesmos e entender o que está alfinetando, para saber o que mudar.

É preciso muita paciência, para assim como aquele pai, permitir que tenhamos nosso tempo, até que as coisas comecem a se revelar à nossa consciência. Pode levar dias, meses, até anos. É preciso respeitar o processo, sem perder de vista essa busca. Mesmo com a dificuldade da criança de se comunicar, o pai manteve sua atencão nela, em suas expressões, ensinando como devemos fazer conosco. Um pouquinho mais de atenção aos sentimentos e intuições e a coisa se revela.

Os sintomas vão deixando de ser só sintomas para se tornar placas da estrada. São as respostas que anunciam os caminhos de volta à nossa paz. E por mais dura que seja, nenhuma trilha (nem as paradisíacas) é mais recompensadora do que esta.

Enfim sós


Deveria ser o que é. O meio da caminhada. O meio pelo qual se aprende. O meio pelo qual vivenciamos o amor. O meio onde criamos nosso espaço, nossos frutos. O meio para um exercício puxado de autoconhecimento e transformação.
Mas muita gente acredita que é mesmo o fim ou o começo. A linha de chegada de uma prova de atletismo, o comprovante fiscal. A bandeirada depois de uma busca que foi longa, exaustiva. Fim dos medos de ficar só. Fim dos medos de errar. Será?

O conhecido “enfim” sós, não tem nada de enfim. É mais um dia da caminhada, agora mais compremetido, mais decidido a encarar os desafios e alegrias que vêm, e a gente sabe que vêm. O casamento é tão especial quanto são  todos os outros dias, aquele em que você toma sopa de abóbora com quem você ama.

Ok, ok, a cerimônica tem um charme todo dela, isso ninguém pode negar. Jardins provençais, pé na areia com ele, quem nunca? O que estou querendo dizer é que vale celebrar os outros. Se não for jogar um bouquet, vamos jogar uma margarida pelos dias comuns! Os que costuram a vida, que nos acontecem antes e depois. Momentos de carinho e intimidade e também os de reticência, impaciência, incertezas, aprendizados. Esses dias que a gente ama, mesmo sem saber do amanhã.


O dia do casamento será sempre Ele. Porque senão não existiram os bem-casados de lembrancinha e aí o mundo estava perdido. Mas caminhar juntos tem que ser tão valorizado quanto chegar a esse fim. É como se, por um momento, a gente mudasse as lentes para ver as coisas de uma forma maior.  Enxergar cada um dos dois, como chegamos e como estamos caminhando agora. Olhar para o percurso bonito, aqui, bem do lado de dentro, não só do lado de fora. E se preparar para outras tantas léguas de mãos dadas.

Se Casamento fosse o fim, que não se esqueça, não iria estar justamente no meio do caminho.

Você está em rede.



Não, dessa vez, por incrível que pareça, não estou falando do wi-fi que o vizinho deixou aberto. Nem de um pacote 4G plus. Dessa vez eu vou falar de uma conexão bem mais sutil: a das coincidências.

Às vezes a gente se pergunta porque acontece uma sucessão de coisas boas para a gente. Uma depois da outra, como se estivessem numa fila. A gente conhece alguém divertido e logo depois essa pessoa nos abre uma porta. A gente pensa em alguém querido e essa pessoa nos manda mensagem no mesmo dia ou semana.  Você se atrasa porque estava dando uma mãozinha para alguém, e acha uma última vaga no estacionamento esperando por você.

Pequenas felicidades, pequenas gentilezas (uma irmã da outra), que acontecem todos os dias, parq quem está atento às sutilezas. O que você chama de coincidência ou sorte, nada mais é que uma sintonia fina com a vida. É, meu amigo, você está em rede.

Você escolhe o estado em que você quer viver, sintonizar. Seja ele de paz, otimismo, paciência, amor. Ou o oposto de tudo isso. Se você escolhe trabalhar o seu espírito no sentido do bem, por exemplo, você vai sintonizar com todas as energias positivas que a vida pode lhe oferecer. Você vai sorrir e vão lhe sorrir de volta, mesmo que não seja na mesma ocasião. A paz que você constrói hoje simplesmente ecoa, como uma pedra que jogada no rio, cria ondas ao redor dela.

Uma vez me contaram que a vida parece um pouco com um radio. Leva um certo tempo para você ajustar a frequência, a estação certa, mas quando consegue fazer isso, o som é harmonioso.

Perceba também o lado oposto. Se você sai para almoçar com o pessoal do trabalho e passa 2 horas envolvido nas reclamações e críticas sobre a empresa, como termina o seu humor depois? Com que astral se senta em sua mesa?

Meu voto, e minha busca eterna, é pelas sintonias essenciais da vida. Pela conexão silenciosa e sutil com a natureza. Pelo valor das gentilezas. Pela paciência incansavalmente trabalhada em si mesmo. Pela compreensão do outro a partir do que você já experimentou em si.

Quem sabe praticando mais isso, a vida também lhe retribui a grandeza de espírito com uma série de gentilezas.  Só pra você achar que é tudo coincidência.

Acidente na pista



Sempre penso que o pior dos acidentes na estrada são aqueles em que um carro sai da sua pista e atinge o outro, na pista oposta. Se um motorista está alcoolizado e cambaleia um pouco na sua pista, vá lá, a responsabilidade é toda dele. Mas o que dizer quando ele atinge uma família, que estava voltando para a casa com tranquilidade, sem problema algum com seu carro?

Extamente a mesma coisa acontece em nossas vidas, sem que nos demos conta. Emoções desgovernadas são como carros que se atiram sobre vidas de outras pessoas, trazendo prejuízos emocionais para ambos os lados. Entenda, todas as emoções são bem-vindas, todas, porque a gente nasce e more sendo gente mesmo. Mas podemos aprender a lidar melhor com elas.

Um momento de ciúme, ambição, intolerância e impaciência fazem com que nos joguemos uns contra os outros, com toda força que uma emoção assim pode carregar. O resultado é bem parecido com o de um acidente de trânsito: de arranhões e traumas leves ao coma total de uma relação.

Pena que ao contrário dos carros, gente como a gente não vem com Manual. Então o que nos vale é acordar e conhecer melhor a nós mesmos. Quanto mais mergulhamos nesse não tão confortável “espaço-interno”, mais sabedoria temos. Pegamos o jeito de lidar com a coisa, seja o câmbio automático ou manual.

Sentimentos e emoções são como crianças, só querem ser acolhidas, mesmo quando erram. Aceitando com dignidade as suas emoções e sentimentos – ou seja, a você mesmo - você têm a chance de refletir sobre eles e transformá-los.

Deixar para os outros a responsabilidade de nos acalmar, de nos trazer a lucidez a paz de volta é muito injusto, para qualquer companhia. É você que tem que cuidar melhor de você, certo? O documento está no seu nome.

Vamos lembrar de quem está no volante. E começar a cuidar do que acontece em nós, com mais delicdeza, mais atenção. Isso pode evitar acidentes na pista. E mais do que isso, vai deixar a viagem por essa vida muito mais gostosa.




O que o Pilates tem a ver com isso.



Outro dia fui experimentar uma aula de Pilates aqui em São Paulo, numa escola nova. E entre as muitas coisas que fiz, uma me chamou a atenção. A professora me corrigia todo o tempo sobre a mesma coisa. Ela dizia: “você está olhando pra cima durante o exercício, está erguendo o pescoço!”. Passava mais um tempo e ela repetia: “Preste atenção no seu olhar. Olhe para cá, para o seu joelho agora”. E por fim, parou e me explicou: “ Você tem que prestar atenção em onde põe o olhar. Porque onde os olhos vão, o corpo todo vai junto, a postura muda, fica incorreta. Os olhos é que puxam.”
A frase me tocou no primeiro momento. É impossível não parar e pensar: onde afinal estamos pondo os olhos, a cada dia?
Às vezes estão lá na preocupação com o futuro. Angústias contínuas com o que pode ou não acontecer, com o que nem está no nosso controle. Olhos no futuro nos deixa ausentes. Nos faz perder o momento presente, que é onde de fato mora toda a alegria.
Os olhos também podem estar nos erros, nas pequenas coisas que falham na vida, diariamente. Se olhamos demais para o que desafinou, toda a sensação no nosso corpo muda, a vida parece toda errante. Se damos mais destaque `as falhas de quem está ao nosso redor ou às nossas próprias, só criamos mais infelicidade. Onde estão seus olhos: na crítica ou no amor?
Da mesma forma, olhos no passado, seja ele bom ou ruim, deixam o corpo cansado, arrastado, como se você tivesse literalmente ausente.
Todo olhar que está fora do momento presente, preso em mágoas, questionamentos, controles irreais, frustações, ou até mesmo sonhos e mais sonhos, nos torna pessoas distantes.
“Tenha muito amor pelo momento presente. Cuide, valorize. É aqui que está toda alegria”.  Seria bom lembrar mais disso. E poder abstrair um pouco que incomoda, focar exatamente aqui, nesse movimento agora.
Temos a mania de querer esperar que a vida toda se acerte para a gente ser feliz. Pense bem, essa harmonia total pode não acontecer. O caminho é realmente experimentar a alegria, a gratidão por um momento, por um dia, e assim, sempre.
A vida desaperece enquanto os olhos estão fechados. Sua vida está acontecendo agora. Se você muda o foco do olhar, toda sua postura em relação à vida, ao dia de hoje, muda. Exatamente como no Pilates.