Ouvimos um barulho forte da sala e alguns minutos depois, o
pai entra com o filho nos braços. Tinha caído da cadeira, o pobre. Ele chorava
sem parar. E nós observávamos a saga do pai para descobrir que parte do corpo o
garoto machucou, já que ele tinha 1 ano e pouco e não sabia falar.
O pai perguntava: “Foi a barriguinha que você bateu?” e ele
só chorava. O avô tentava: “coloca a mãozinha onde está doendo”, e a criança
não obedecia, só soluçava. O pai ia pegando no pezinho, na barriguinha, observando
se em alguns desses pontos a carinha de dor dele aumentava. Mas ao invés disso,
o menino só ficava mais irritado com a incompreeensão. Até descobrir que o
choro foi só pelo susto, foi-se uma meia hora.
Outro dia me dei conta que com a gente também é assim. Às
vezes nos sentimos mal, estranhos, angustiados, mas não conseguimos indentificar
imediatamente o que está nos deixando assim. Não é muito simples decifrar os
códigos da alma, escutar a nós mesmos e entender o que está alfinetando, para
saber o que mudar.
É preciso muita paciência, para assim como aquele pai,
permitir que tenhamos nosso tempo, até que as coisas comecem a se revelar à
nossa consciência. Pode levar dias, meses, até anos. É preciso respeitar o
processo, sem perder de vista essa busca. Mesmo com a dificuldade da criança de
se comunicar, o pai manteve sua atencão nela, em suas expressões, ensinando
como devemos fazer conosco. Um pouquinho mais de atenção aos sentimentos e
intuições e a coisa se revela.
Os sintomas vão deixando de ser só sintomas para se tornar placas
da estrada. São as respostas que anunciam os caminhos de volta à nossa paz. E por
mais dura que seja, nenhuma trilha (nem as paradisíacas) é mais recompensadora
do que esta.